sexta-feira, 13 de junho de 2014

Putin demolidor
Tyzhden (Semana), 09.06.2014

O que pensam e dizem dois líderes da oposição russa: Leonid Gozman e Vladimir Ryzkov que, recentemente visitaram Minsk. Eles vieram para o Congresso de seu fraterno Partido Civil Unido, mas com os jornalistas falaram sobre Ukraina.


Putin pretende permanecer na memória do povo como "colecionador das terras russas". No entanto, antes permanecerá como "Gorbachev número dois". Mikhail Gorbachev desmantelou a União Soviética, Vladimir Putin sistematicamente e com certeza leva ao colapso da Rússia. Pelo menos assim julgam os democratas de seu país.

Muitos ficaram com a impressão de que Putin enlouqueceu. A base para isto é que ele "comprou" a península por fabuloso preço. O preço da Crimeia e a incrível aventura anti-ukrainiana é de 5 - 6 bilhões de dólares anualmente, somente para apoio da região, mantendo o mesmo nível de vida. Isto,  e sanções econômicas de longo prazo são extremamente destrutivos para Rússia. É mais a fuga de capitais, isolamento internacional, a corrida armamentista inevitável que, uma vez já quebrou a URSS. A questão talvez nem sejam as sanções, os nossos diplomatas, talvez, consigam trocá-las por algo. A questão é perda de confiança ao país. Muitos projetos econômicos hoje pararam. As elites ocidentais compreenderam, que Rússia não será seu parceiro estratégico e veem-na mais como inimiga. É assim que elas agora nos tratam.

Tendo isto em mente, dizem que Putin fugiu do senso comum. Mas na verdade, não é bem assim. Todas as suas ações dita uma não muito secreta meta: ele começou perder a legitimidade dentro da Rússia.

A legitimidade deste líder nunca foi baseada nas eleições (eleições eram apenas um procedimento formal no país). Ela se apoiava num fantástico carisma. No início ele sentia muito bem o país, e sua expressão "na latrina molharemos" era uma idéia nacional, ele era visto, realmente como líder nacional. Depois aconteceu: de Putin começaram rir. Carisma rolou para baixo. Quando ele levantava taças - as pessoas riam. Voava com pássaros - os cidadãos ficavam histéricos (Putin realizava estes atos aventureiros - OK)). Isto é muito perigoso para um político: ele não sente mais o país. E entendeu isto num, para ele, dia trágico no estádio "Olímpico" quando numa batalha sem regras entre um americano e russo o último venceu.  E, Putin fez aquilo, que caberia a qualquer líder, de qualquer país: entrou no ringue para felicitar o vencedor e os fãs. Em vez de cumprimentos, foi vaiado. 

Perder o carisma para um líder significa falência do sistema, e ele correu à procura do inimigo. Primeiro - em casa: lutou com os homossexuais, pedófilos, "quinta coluna", mas isto não funcionou.  Mas, com a Criméia sentiu aquele narcótico, que querem os compatriotas. Um grande país, novos territórios, proteção a seus... Embora é preciso falar aqui sobre os últimos inconvenientes: os russos étnicos realmente sofrem em Tajiquistão, Turquemenistão, mas lá o exército não mandamos. Criméia - é lugar, onde eles não podem ser discriminados: 60% da população usa o idioma russo, nenhum jornal foi fechado, no governo estão seus bandidos russos. Lá ele entrou - e o que ele ganhou? A volta do carisma. E de acordo com a sua lógica, vale a pena o preço, que será pago pela Federação Russa. E mais. Putin já está 15 anos no poder. E então, naturalmente pensa, como ele ficará na memória dos russos. A julgar pelo que ele faz, com quem ele conversa, etc., ele tem um sonho - é permanecer "colecionador de terras russas". No mesmo nível de Ivan Kaluta (Príncipe de Moscou de 1325 a 1340. Visou o fortalecimento de sua liderança e expansão territorial - OK).

Putin diz que não planejou a anexação da Criméia e que tudo foi resolvido na última hora, isto pode ser verdade. Mas as ações contra Ukraina foram desenvolvidas com antecedência. Porque a principal tarefa estratégica não era a anexação da Criméia, mas não deixar Kyiv abandonar o espaço pós-soviético. Isto foi planejado com antecedência. Não exatamente uma operação militar e anexação da Criméia.
Tanto Putin quanto Lavrov adiantavam que haveria reação. Eles declararam que, se Ukraina assinasse o Acordo de Associação com UE, Rússia teria que recorrer a o que eles diziam "medidas de proteção". Sobre isto Glazyev falava desde cedo ate a noite. 

Voltando sobre o "colecionador de terras" A assinatura da Associação UE - Ukraina, para Putin - enorme derrota nesta estratégia. Ele já teve a experiência da perda - da Georgia. Mas ela fugiu da Rússia, perdendo dois pés - Abkhazia e Ossétia do Sul. Ukraina também foge dele, perdendo parte do corpo. Nós ainda não sabemos o que e quanto...

Na verdade, para Putin o principal - sobrecarregar a importância do seu poder. Primeira legitimidade ele conseguiu graças a Chechênia. Segunda - graças ao rápido crescimento econômico. Última - 2008 - guerra da Geórgia. Agora está em seu quarto pico de legitimidade.

Mas ele não conseguiu entender que seu principal inimigo - economia. Com ela está tudo ruim. Putin está ciente do perigo das sanções. Algumas vezes ele disse: "Não entendo, por que sanções, o que nós fizemos, nós queremos negociar, nós queremos remover as barreiras comerciais, etc. E para ele não é segredo, que aumentando o seu ranking na Rússia, ele terá problemas na economia.
  
Estes são os limites que ele opera: de um lado quer aprender, mas do outro - levará ao colapso econômico e isto será um golpe para sua autoridade. Então ele procurará uma saída da situação. Mas fará assim: salvando Criméia - um; tentando manter Ukraina na sua esfera de influência - dois; tentando evitar o colapso da economia - três. E, por isso foi publicado o plano de Lavrov, no qual o mais importante - o estado neutro de Kyiv. Este é o ponto mais importante: nenhuma OTAN na Ukraina.

Se este ponto não for executado, Ukraina vai continuar perdendo extremidades.

O Ocidente, com extensão apreciável, é culpado pela situação da Ukraina. Quando Putin propôs conversações tripartidas sobre a associação de Kyiv e UE, Ashton disse: "Você aqui não tem pé", isto foi grosseria e estupidez. Porque Ukraina não se limita com Japão. Na Rússia tem Putin, e ele tem possibilidades ilimitadas. Não é Obama que tem Congresso, com o qual ele até pode não concordar. Se Putin der indicação para aprovar hoje - ela será aprovada.

O ganchinho para mudança na política da Rússia foi a mudança que o Ocidente fez em relação aos países pós-soviéticos. Até 2011, na estratégia da UE o princípio da Rússia estava em primeiro lugar: antes de fazer algo na área pós-soviética, precisava falar com Moscou e aclarar seu pensamento. Isto até foi registrado nos documentos europeus. A Parceria Oriental tentou ignorar este princípio e, inicialmente, Kremlin respondeu suavemente. Quando chegou à assinatura de documentos - e ele percebeu que era sério, para o quê é, a Associação com UE? Para reorientação do mercado. Desculpe, mas na Ukraina fazem partes de mísseis estratégicos e todos os motores para helicópteros de combate da FR. E ainda muitos componentes para aviação russa. Nesta situação, a reorientação do mercado não é brincadeira.

O Ocidente passou para estratégia mais agressiva. Se Ukraina fizer movimentos bruscos em direção a OTAN ela receberá ainda mais pressão.

Suponhamos que Belarus peça adesão amanhã para a Aliança. Através dela passa enorme trânsito comercial e militar - a Kaliningrado. E isto são os interesses vitais para Rússia. Vocês podem ignorá-los, como Ukraina tenta fazer isto, mas saibam que receberão resposta. E quaisquer país deve levar em conta os interesses vitais dos vizinhos. Qualquer país reage à ameaça aos seus interesses vitais.  
Não incluindo eles - estejam preparados para pressão e reação. E, se querem opor-se a algo - é necessário ter imunidade. Eu não vejo imunidade na Ukraina, sob a qual entendo uma economia forte, um poder forte, valores partilhados, liderança legítima, etc. Nada disso existe hoje na Ukraina. Caso seu governo declare, agora, um movimento em direção a OTAN, ele receberá uma desestabilização ainda pior que hoje está em diversas regiões. Rússia diz diretamente, que OTAN - é a linha vermelha. Se o governo de Kyiv agora decidir acabar com seu país, então o primeiro passo - é a adesão imediata a OTAN.

Penso que Putin reconhecerá Poroshenko - porque não há para onde ir. Pois a sociedade ukrainiana, inclusive graças a ações do próprio Putin, consolidou-se, e estas são as primeiras eleições da Ukraina, cujo vencedor ganhou em todas as regiões, onde houve votação. É óbvio, que a corrida foi legítima, pacífica, livre, justa, transparente. Portanto não há alternativa para Putin.

Poroshenko, como dizem os ukrainianos, pessoa fantasticamente comunicativa, sabe negociar com todos, e para ele uma paz má é melhor que uma boa luta. Ele deverá encontrar um caminho comum com Putin.

Quanto a Ukraina Oriental, a principal questão é, vamos parar nossa interferência lá, ou não. Se assim for, as Forças Armadas da Ukraina rapidamente estabelecerão a ordem na região. E sem muito derramamento de sangue, porque os participantes locais dos protestos não são as principais pessoas da ação. Estes podem construir barricadas, mas geralmente não são lançadores de granadas e não atiram. Mas, se Rússia jogar armas e bandidos para lá, então não se sabe como será.

Mas Putin deve levar em conta: Poroshenko não tem como voltar atrás. Obviamente, se o Presidente da Ukraina não apagar o fogaréu da rebelião no leste, ele perderá o apoio, e, portanto a possibilidade de fazer algo mais. Poroshenko, por sua vez, deve considerar o seguinte: Putin não recuará se isto constituir perda de aparência. O problema é como o líder da FR possa recuar, sem cair no conceito geral. Portanto, tudo deve terminar corretamente para Putin, apesar de ter sido ele quem começou.
Penso que no leste ukrainiano haverá paz. Bem, lá não há base para uma guerra total - não é 
Chechênia.

Não sei se é adequado falar sobre isso com Vladimir Putin mas no governo há muitas pessoas adequadas. Nem tudo deve ser reduzido a questionamentos: "Você me respeita? Reconhece minha soberania, ou não?" "Na verdade devemos agir em vista do interesse real. Se eu fosse ukrainiano - gostaria de estar na OTAN. Mas, se eu fosse político ukrainiano, que tenta a entrada à Aliança, conversaria com Rússia. O estatuto da OTAN proíbe ao país-membro ter em seu território a base militar de país não-membro. A adesão de Kyiv à OTAN automaticamente significa eliminação da base em Sevastopol. Pensemos o que fazer com ela.

Rússia embarcou em um caminho muito perigoso. Surgem problemas sérios na economia, aumenta consideravelmente o atraso tecnológico, nós caímos em uma forte dependência da China e, ao mesmo tempo cortamos nossos laços com o Ocidente. Concomitantemente de nós fogem pessoas e capitais, 50% dos jovens desejam sair da Rússia. Nós aumentamos os custos imperiais na base do país que afunda.

Agora o fornecimento a Criméia de medicamentos, alimentos e combustível acontece pelo mar, do porto de Novorossiysk a Feodosia. Criméia tem 2,5 milhões de habitantes. Lá não tem eletricidade - agora levaram para lá as estações elétricas "Olímpicas" de Sochi.  Tudo isto é ninharia. E se decidirem trabalhar em grande escala? É muito dinheiro. Quanto custará a ponte de 6 km sobre o estreito de Kerch mesmo sem as vias de acesso? Há necessidade urgente de perfuração de poços, construção de tubulações de água, puxar cabos elétricos do continente. Serviço para mais de um ano e dezenas (ou centenas) de bilhões de dólares. Ao mesmo tempo Rússia subsidia Belarus, Armênia, Turcomenistão, Tadjiquistão. Estas ajudas crescerão: com a saída dos americanos de Afeganistão nós precisaremos fortalecer nossa presença lá.
Crescem as despesas com o exército, para subsidiar os satélites. Mas o alcance da economia, neste ano, diminuiu fisicamente. E eu sinto, que tais cálculos faltam na cabeça de Putin. Quanto tempo ainda passará antes da Rússia consumir todas as suas reservas de ouro e nós entendermos que não podemos carregar tal fardo?

Parece que Putin, aproveitando tais decisões, não tem consciência de que comete erros sistêmicos, que levam ao fim de seu poder. Assim como Gorbachev que fez uma série de erros, levou ao colapso da URSS. Anexação da Criméia, manutenção do espaço pós-soviético - é um erro sistêmico de Putin, que derrubará seu regime. Se Rússia se preservará como país, grande questão.

A Rússia autoritária inevitavelmente se desintegrará. Ela não conseguirá lidar com a carga de império. Controlar os territórios com exército nós não temos capacidade. Nós podemos reunir algumas tropas, como na Guerra da Geórgia, contribuir com estranhos ativistas no leste da Ukraina, mas manter a força as vastas extensões de Kaliningrado ao Extremo Oriente não conseguiremos. Tais recursos não há. O Estado pode esmagar a rebelião em qualquer parte, mas não pode fazê-lo em todas as partes.

Império não se sustenta sobre baionetas, mas nos atrativos. Se Rússia não é atraente para Extremo Oriente, por exemplo, não há razão para permanecer em sua posição.

Peso econômico que Putin criou com sua aventura para garantir Criméia: 6 bilhões anualmente apenas para garantir Criméia, sanções econômicas a longo prazo, a perda de confiança na Rússia. 
Segundo previsão de Alex Kudrin, ex-ministro das Finanças da Rússia, a saída dos capitais do país em 2014 será 200 bilhões de dólares. Todas as reservas de ouro da Rússia - 500 bilhões de dólares.

Muitos consideram que o "carisma" de Putin, em conexão com os eventos da Criméia - é para longo tempo. Mas pode acontecer diferente. O povo, dentro de 6 meses "cansará da apropriação". Isto não significa, que as pessoas sairão às ruas lutar pela paz,mas elas deixarão de ser amortecedoras de problemas econômicas. Revoluções, explosões não ocorrem quando a vida é ruim, mas quando a vida melhora menos do que o esperado. Nós, obviamente, não teremos melhorias de vida.

E quando Rússia não tiver dinheiro para sua própria existência, ela começara desintegrar-se.

Tradução: O. Kowaltschuk

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