sábado, 13 de junho de 2015


"Se nós dissolvêssemos todas as prisões e campos (de concentração) - isto significaria o fim do poder soviético!"
Vysokyi Zamok (Castelo Alto), 25.05.2015
Orysia Khomiak

A revolta de Norilsk minou as bases do sistema repressivo da URSS. (Norilsk, cidade da região de Krasnoyarsk, na Sibéria - Rússia-OK).


Em 26 de maio de 1953 simultaneamente fizeram greve mais de 20 mil prisioneiros políticos de Norilsk. 70% deles eram ukrainianos. O confronto com a administração durou 69 dias e terminou em derrota. Mas o precedente foi sensacional, e as consequências - muito mais sérias, do que podia imaginar a liderança soviética naquela época. 
Jornalista deste jornal conversou com um dos organizadores do levante de Norilsk - cidadão de Ivano-Frankivsk Eugene Hrytsiak. Eis a sua história.

Quatrocentos prisioneiros exaustos e famintos pesadamente pisavam com suas botas (cano de lona). Um dia longo e exaustivo na construção terminou, e nos conduziam "para casa" - no acampamento. Todos caminhavam como de costume e como exigia o comboio - em silêncio. Cada um fechou-se em si mesmo e pensava seus assuntos. Eu estava cativado pela idéia de organização no "gulag" todo, de uma grande política, sobre a qual, a algumas semanas atrás, me contou Stephen Venhryn.

Em 26 de maio de 1953 nós saímos para o trabalho. De repente, próximo da 5ª zona, estalou o autômato. Mais tarde soubemos, que mataram um, feriram seis. Alguns presos, que haviam começado o trabalho, pararam. As pessoas corriam em desordem, movimentavam-se. Os mais ativos começaram gritar: "Estão  nos matando! Não vamos trabalhar! Chamamos comissão de Moscou!" Mas, em seguida, quando o fervor da indignação começou arrefecer a excitada natureza humana também começou a diminuir. Prisioneiros demasiado medrosos retomaram o trabalho. Nós, os adeptos da greve precisávamos de alguma coisa para parar o trabalho, porque houve aquele incidente, que tocou fundo a cada um. Portanto, nós, em pequenos grupos, espalhamo-nos por todo o canteiro, para conter aqueles, que retomaram o trabalho. Eu tive a idéia de ir à estação de compressão e pará-la. Todos os pneumáticos silenciaram. E, junto com eles pararam todos os trabalhos. Desta vez, definitivamente! Assim, a nossa indignação natural transformou-se em uma revolta bem organizada. A direção foi subjugada. Já ninguém atirava em nós, nem mesmo ameaçava.

Na manhã do terceiro dia veio major-general Panyukov, especialmente de Krasnoyarsk. "Vocês interrompem o plano de Estado! - gritavam para nós. - Isto é sabotagem! Hrytsiak, conduza o povo!". "Não há nenhum fracasso do plano, - digo. - Desde o término da guerra passaram-se oito anos. Durante este tempo todo, os presos de Norilsk não tiveram nenhum dia de folga".

Em 6 de junho à nossa zona vieram "altas" pessoas. Um deles, que tinha o posto de coronel, disse: "Moscou tomou conhecimento sobre desordens, que acontecem em Norilsk, incluindo na sua 4ª Zona. Para esclarecer a situação, Moscou enviou para cá uma comissão governamental. Propomos selecionar, de entre vocês cinco representantes, que reivindicariam todas as pretensões"...

Esta comissão não nos pegou de surpresa. Nós insistíamos na sua chamada, esperávamos que ela viesse e, em qualquer caso estávamos prontos para isto. O grupo de delegados completou-se rapidamente. Eu representava os ukrainianos. Vladimir Nedorostov os russos, Grigor Klimovich a Belarus. Os nomes de dois outros representantes não eram conhecidos para mim. Depois de algum tempo, a nós se uniram mais dois prisioneiros. Um deles era ukrainiano - Miroslav Melen. Nossas exigências eram: parar os fuzilamentos e todas as outras demonstrações de arbítrio nas prisões e nos campos, substituir toda administração, reduzir a jornada de trabalho para oito horas, garantir a folga semanal, melhorar a alimentação, permitir a correspondência e visita de parentes, remover de Norilsk todos os inválidos, parar com as torturas nos interrogatórios, rever os assuntos pessoais de todos os presos políticos.

Em 9 de junho nos avisaram, que nossas exigências foram consideradas e decidiram: substituir a administração, reduzir a jornada diária de trabalho, garantir o final de semana, permitir o envio de duas cartas mensais aos parentes, retirar de Norilsk os inválidos...

Mas de manhã, em 01 de julho de 1953, sobre os prisioneiros da 5ª zona abriram fogo de metralhadora. Em resultado - 27 pessoas mataram e um número desconhecido foi ferido. Conosco começaram conversar no idioma das metralhadoras... 5ª masculina e 6ª feminina foram colocadas a par. Quando começaram fuzilar os presos da 5ª zona,
as mulheres vieram junto ao arame e, suplicando estenderam as mãos (muitas seguravam crianças), gritavam: "Não atirem neles! Atirem em nós!"

...Após sufocar a 5ª e 4ª zonas masculina, a liderança concentrou toda sua atenção na 6ª feminina. Visto que as mulheres subjugar-se não queriam, contra elas usavam a força. Por sorte, nelas não atiravam, apenas as encharcavam com água dos carros de bombeiros. Finalmente, as mulheres foram forçadas a se render.

Em 4 de agosto os portões da 3ª zona do presídio (única onde a revolta ainda não foi sufocada)  abriram-se, e lá, nos carros entraram armados com metralhadoras soldados bêbados. Os prisioneiros queriam detê-los, mas os soldados responderam com fogo. Quando, deste modo, a resistência foi quebrada, à zona vieram os oficiais, que acabavam de fuzilar os gravemente feridos e procuravam aqueles presos que desejavam fuzilar.

... Após a administração impor plenamente o mando na zona, começou a seleção dos ativistas de resistência. Os selecionados eram jogados num buraco próximo do portão. Sobre eles pulavam, batiam e socavam. Especialmente raivosos tornavam-se os escoltadores e os inspetores quando viam sangue no corpo de alguém - dos feridos abusavam com extrema crueldade. Quando os feridos perguntaram à mulher-médica, como ela via tudo isso, ela respondeu: "Eu,em primeiro lugar sou chequista, depois médica"... Após esse tratamento os presos foram levados à prisão, onde os deixavam passar pela prisional "motoboika". Um dos capitães, que me interrogou na prisão, gritava: "Você sabe o que significaria, se nós dissolvêssemos todas as prisões e campos? Isto significaria o fim do poder soviético"...

Em 6 de setembro, inesperadamente me ordenaram para preparar-me à próxima etapa. E, já em 8 de setembro, juntamente com outros prisioneiros me colocaram nos porões-prisões do navio de passageiros "Maria Ulyanova". Do meu peito, como uma pesada pedra, desmoronou - não fuzilaram em Norilsk e não afogaram em Yenisei.
Viveremos! Por nós já esperava a grande prisão Volodomerskaya.

Aldeia Ustia, distrito Snyatyn, Ivano-Frankivsk  na Ukraina - é onde vive o narrador destes fatos.

Informações do "Castelo Alto".
Eugene Hrytsiak - ex-membro da organização nacionalista em Snyatyn, soldado do Exército Vermelho, preso político, organizador da revolta de Norilsk. O acampamento, no qual liderou a revolta Eugene Hrytsiak foi o único em que não houve derramamento de sangue.

Eugene Hrytsiak nasceu em 1926, na vila Stetsev, próximo de Snyatyn (Agora Ivano-Frankivsk). Antes do início da Segunda Guerra Mundial era aluno do ginásio de Snyatyn. Em seguida colaborou com a organização nacionalista juvenil que preparava os jovens à luta contra os nazistas. Não fugiu em 1944, quando o Exército Vermelho ocupou Ukraina. Foi mobilizado ao Exército Vermelho, onde permaneceu até 1949. Foi soldado da 4º Frente Ukrainiana. Em 1949 a contra-espionagem soviética descobriu sua colaboração juvenil nacionalista ukrainiana. Foi preso, condenado à morte, que foi substituída por 25 anos em prisões e campos de concentração... Hoje Eugene Hrytsiak reside na aldeia Ustia na região Snyatsynsk em Ivano-Franquivsk, com sua filha, neto e sua esposa..

Tradução: O. Kowaltschuk

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