quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Agora começará uma séria "quebra" em maioria dos russos que acreditaram em Putin
"Mundo russo-árabe" de major Putin.
Radio Svoboda (Rádio Liberdade), 05.10.2015
Oleg Panfilov - (Categoria "Opinião")



Vários analistas e especialistas ainda por muito tempo discutirão a loucura atual, de Putin, mas agora uma coisa já é certa - o próprio líder russo tenta salvar-se com a guerra da vez. A quinze anos atrás, ele começou a subida ao trono com guerra - no início em Daguestão, depois na Chechênia, com guerra ele se acabará. Surpreende não tanto a incapacidade desta pessoa na condução política, como a sua sede de sangue e grosseria, que ele demonstra todos esses quinze anos.

Eu daria muita coisa para conhecer o número exato de russos, os quais sabem, o que é  a "amiga da Rússia", Síria, e, especialmente, quem é o cinquentenário ditador sírio Bashar al-Assad, médico-oftalmologista de formação, honrado com o título de marechal do exército sírio. A família al-Assad (nome real - al-Vakkhsh) - típica da dinastia oriental, que chegou ao poder há 45 anos em resultado de golpe apoiado pela União Soviética. Para Kremlin, naquele tempo , isto foi presente da política anti-israelense: os palestinos não eram suficientes para enfrentar Tel Aviv, e os sírios mostraram-se oportunos. Segundo o historiador e jornalista Leonid Mlechin, o ministro da defesa da União Soviética
Dmitry Ustinov em resposta aos constantes pedidos do senior Al-Assad sobre ajuda lembrava, que por anos de cooperação com Síria, Damasco recebeu armas soviéticas no valor de 8,5 bilhões de rublos, o que naqueles tempos era uma soma enorme.

Ideologicamente, o partido "Baath", cujo líder do ramo sírio era o sênior al-Assad, era próximo do Partido Comunista da União Soviética. O partido Pan-árabe que tem filiais na Palestina, Iraque, Síria, Iêmen, Sudão e até Jordânia, era favorito em Moscou, apesar do fato de que, essencialmente representava a ideologia despótica oriental camuflada sob o socialismo. Outros partidos os líderes soviéticos não conheciam e não queriam conhecer - a eles o mais importante é ter em mãos os inimigos de seus inimigos, e no programa "Baath" o anti-americanismo foi o principal ponto ideológico. Os slogans do partido "Baath" eram estúpidos, como os do Partido Comunista da União Soviética. - "Unidade, liberdade, socialismo". Sobre o socialismo no feudalismo podemos falar apenas com um sorriso.

Segundo detalhe desconhecido aos russos - apoio a família al-Assad. O sênior Hafez participou de dois golpes militares em casa, e depois de um bem sucedido - em 1970 ele se tornou um ditador. Após sua morte, o filho Bashar assumiu o cargo de ditador, e um dia após a morte do pai foi promovido a tenente-general e recebeu o cargo de Comandante Supremo. O Parlamento sírio mudou a constituição, para que Bashar, de 34 anos pudesse se tornar presidente. E em junho, em um referendo, ele foi eleito chefe do país, com uma pontuação de 97,29 por cento. Ele era o único candidato e no próximo referendo em 2007, com o resultado ainda melhor - 97,62 por cento. Mais  referendos não houve, provavelmente não houve necessidade.

Para entender o que mantém a ditadura, é necessário saber, que o povo da Síria - um pouco mais de 22 milhões, dos quais 90% são árabes. A segunda maior nação - curdos. No terceiro lugar turcomanos sírios, aproximadamente 100 mil. Entre as minorias, destacam-se circassianos, armênios e assírios. Cerca de 86% da população da Síria - muçulmanos, 10% cristãos - católicos, ortodoxos e armênios da Igreja Apostólica. Da população muçulmana 82% são sunitas, o restante - xiitas: alauítas e ismaelitas. A família al-Assad é de alauítas, Hafez veio dos alauítas, da tribo kalbiya, a mãe de outra tribo alauíta - haddadin. A minoria detém o país no medo por 45 anos.

Agora, quando os políticos russos, incluindo a Igreja Ortodoxa Russa, começaram preencher o espaço informativo com explicações que Síria - país irmão, ainda mais, que o berço do Cristianismo, no Kremlin, dissimulam em sua alma ignorante. O cristianismo sírio é mais próximo às nações caucasianas, que à ortodoxia russa, que recebeu influências de Bisâncio, não só como a ideologia do poder imperial de César, mas a sua ortodoxia - com o ouro e outros enfeites, que se tornaram tão apreciados pelos hierarcas da Igreja Ortodoxa Russa. De acordo com as pesquisas da organização de caridade cristã internacional "Portas Abertas" de 2015, Síria ocupa o quarto lugar na lista dos países, onde a lei oprime os cristãos. No entanto, também aqui Kremlin e Igreja Ortodoxa Russa falsamente explicam, que isto não é obra de al-Assad, mas de sua oposição armada.

O volante da propaganda russa foi lançado e agora a Igreja Ortodoxa Russa denomina a participação do exército russo na Síria "Luta sagrada". Isto apesar de dez por cento da população cristã não é apenas blasfemo, mas também perigoso. Seguindo o antigo Khersones grego, agora chamam "sagrada"  a Síria. Diretor do Centro Russo de Estudos do Oriente Médio e da Ásia Central Semen Bagdasarov declarou, que "territórios da Síria - é o lugar a partir do qual a ortodoxia veio para Rússia".
O coronel do exército soviético Bagdasarov, provavelmente, como muitos políticos russos, não lê livros e não pensa dar explicações quanto a o que inclui a Ortodoxia Russa à antiga igreja siro-yakovytskyy. (Siro-yakovytskyy - Igreja Ortodoxa  (Síria) - uma das seis igrejas antigas (orientais), que reconhecem os três Concílios Ecumênicos. A igreja síria ortodoxa  (como todas as outras igrejas orientais ortodoxas, de Tradição teológica diferem da Igreja ortodoxa de tradição bizantina, que constrói sua teoria sobre as decisões de Calcedônia e os três concílios seguintes, compondo-se com ela na eucaristia.- Pesquisa internet - OK)

A confusão da propaganda russa pode ser explicada pelo malogro de Putin na Ukraina. Agora, Kremlin sente todos aqueles aborrecimentos, que ocorreram há 30 anos com a União soviética - agressão no Afeganistão em 1979, início apos Jogos Olímpicos em 1980 de sanções e queda catastrófica dos preços do petróleo. E até mesmo o "Boeing" sul coreano que foi derrubado em 1983. Os fracassos do Kremlin com terrível sequência repetem-se a cada 20 - 30 anos, mas nenhuma liderança soviética, nem agora a russa não tiram conclusões e persistem a pisar no mesmo rastrilho. Quando a um ano e meio os analistas escreviam sobre "armadilha da Criméia", eles tentavam imaginar, aonde levará a raiva e a ignorância do major da KGB Putin. Agora ele acertou na "armadilha síria" e, como observou o historiador e escritor Viktor Suvorov, "para eles Geórgia era pouco, Ukraina era pouco, eles foram até Síria. Tudo isso não acabará bem. Com Afeganistão, pelo menos havia limite comum, podiam trazer os feridos, levar munição. E para Síria como vão levar? Isso é loucura, é a agonia do regime".

Kremlin ficou sozinho com sua propaganda - ele inventa uma mentira, e sozinho acredita nela. Mas, parece, agora começará uma grave "quebra" na maioria dos russos, que acreditaram em Putin, construtor do "mundo russo", incluindo Ukraina, o qual na verdade envia tropas para lutar pelos árabes, pelos muçulmanos. Na ideologia soviética era mais fácil explicar à população - "ajuda fraterna", "ajuda internacional", mas na última década a maioria dos russos pegou o vírus da propaganda chamado "mundo russo". E, mesmo ao coronel Bagdasarov será difícil explicar um tal "mundo russo" num país árabe distante.

Oleg Panfilov - Professor da Universidade Estatal Ilia (Georgia), fundador e diretor do Centro de Jornalismo Extremo em Moscou (2000 - 2010).

Tradução: O. Kowaltschuk

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