segunda-feira, 10 de agosto de 2015


Mapa da Ukraina


Territórios ocupados: Luhansk e Donetsk: Azul claro - Luhansk; Amarelo - Donetsk; Creme - parte ocupada de Luhansk e Donetsk, pelos separatistas.



Jornalista francês Pierre Sotrei: Parte colossal de comboios humanitários era vendida.
Ukrainska Pravda Zhyttia (Verdade Ukrainiana Vida), 31.07.2015
Tatiana Oharkova

Pierre Sotrei - um jornalista francês, que desde maio de 2014 esclarece os acontecimentos no Donbas, particularmente em áreas não controladas pelo exército ukrainiano.
Seus artigos são publicados nos jornais franceses L'Obs, Le Parisien, Le Monde. Especial interesse de Pierre - investigação de conflitos internos entre diferentes facções pró-russas na região de Luhansk.
Pierre é finalista do prêmio Vayo-Calvadas para jornalistas de guerra na categoria "Jovem Repórter".

- Recentemente você publicou no L'Obs a investigação "Quem matou o comandante "Betmen". O texto era sobre a disputa entre diferentes clãs na FSC. Por que você se interessou por este tema?

- Eu me encontrei com Alexander Byednov ("Betmen") em novembro de 2014, quando investigava a luta dos clãs entre separatistas pró-russos em FSC. Esta investigação saiu com o nome "Donos da guerra em Luhansk".
No outono de 2014 "Betmen" era um dos líderes militares mais influentes de FSC (É parte de Luhansk) dominada pelos separatistas. Ele teve conflito político e econômico com Igor Plotnytskyi, "presidente" do FSC . "Betmen" e Plotnytskyi viam o futuro da "Nova Rússia" de modo diverso, eles apoiavam-se em diversos círculos de Moscou e competiam pelos recursos econômicos de Donbas (carvão, petróleo, ajuda humanitária, extorsão de empresas locais, etc). A investigação desta luta me permitiu descobrir a "face oculta" do separatismo, ou seja, o aspecto econômico da autoproclamada república separatista, que tem a natureza abertamente criminosa.
"Betmen" foi morto em 01.01.2015. Não foi o primeiro assassinato deste tipo. Em novembro de 2014, em Antratsiti, em circunstâncias duvidosas morreu o líder cossaco "Bandeira". Mas, esta morte não explica a morte de "Betmen". Outros comandantes de campo, como Alexei Mozgovyi (equipe Prizrak) e otaman cossaco Paul Dryemov eram muito mais críticos a Plotnytskyi que "Betmen". 
Alguns meses após o assassinato, minhas fontes entre as pessoas de "Betmen" me contaram, que ele, Mozgovyi e Dryemov tentavam derrubar Plotnytskyi. Eles não queriam rebelião do "estado", mas a exposição pública do lucro ilegal sobre a ajuda humanitária, que era enviada ao Donbas pelo Ministério de Emergência da FR.

- Então, a ajuda humanitária da FR não era entregue ao povo, mas vendida? Como se realizava este esquema?

- Desde agosto de 2014, o Ministério de Situações Extraordinárias da Rússia enviou para Donbas mais de 30 comboios humanitários, o que é aproximadamente 25.000 toneladas de produtos, materiais de construção, medicamentos, combustível, etc. De acordo com as minhas fontes, esta ajuda humanitária, em grande escala, foi usada para outros fins. Até 50% do conteúdo dos comboios, ao invés de ser distribuído para população, foi vendida. No final de dezembro de 2014 Dryemov publicou um vídeo que expôs este esquema. Três dias depois mataram "Betmen".
Os produtos comestíveis vendiam através das lojas "nacionalizadas" e mercados (inclusive a rede de mercados ATB). Os lucros chegaram a milhões (Muitos locais perderam empregos, pensionistas tiveram suas pensões ukrainianas bloqueadas por problemas bancários, muitos chegaram a passar fome mas os bandidos locupletavam-se - OK). Estes fatos me confirmaram os líderes militares dos separatistas, e também a ex-funcionária da administração da FSC, de proteção social.
Eles afirmavam que as lojas nacionalizadas eram controladas pela esposa do Plotnytskyi, Larissa Plotnytskyi, mas eu não consegui confirmar isto.
Parece, também, que parte do obtido através da venda ilegal da ajuda comunitária voltava para Moscou, aos bolsos de alguns funcionários do Ministério de Situações de Emergências.

Esquema clássico de "reversão".
É importante entender, que o Ministério não controla a distribuição da ajuda humanitária a DNR (parte de Donetsk que é controlada pelos separatistas) e FSC, mas, lida apenas com carregamento e envio de comboios para o território separatista.
Como me disse, um dos comandantes separatistas, é impossível, que uma tal utilização abusiva ocorra sem a cumplicidade de altos funcionários do Ministério de Emergência da Rússia. 

- Fale mais sobre a luta entre clãs separatistas da FSC. Qual o motivo para essa luta?

- O estabelecimento do poder vertical na DNR e FSC aconteceu de forma muito diferente. Em Donetsk, tudo foi rápido. A remoção do poder, no final do outono de 2014, de Besler "(que manteve Horlivka sob seu controle) foi o último episódio de luta pelo poder na região até a centralização final do poder por Alexander Zakharchenko, pessoa do Kremlin em Donetsk.
Em Luhansk, esta vertical do poder, por um bom tempo foi ausente. O conceito "dono da guerra", caracteriza muito bem os comandantes concorrentes, que eram independentes uns dos outros, e cada um tinha seu território próprio.
Em Alchevsk, por exemplo, Alexei Mozgovyi e seus combatentes faziam tudo o que queriam.
Em Stakhanov o kazak Pavel Dryemov até proclamou a independência da "República Popular Cossaca".
Tais exemplos são muitos. Curiosamente, que cada um desses "donos da guerra" tinha diferentes relações e diferentes "patrocinadores", em Moscou.
Parece que Strelkov apoiava "Betmen", Mozgovyi e Dryemov em seu desejo de eliminar Plotnytskyi. Para que? Para ele, isso poderia ser um meio para assumir o controle todo do movimento pró-Rússia?
Como num espelho distorcido, esta pressa na FSC refletiu confusão na existência de contradições também em Moscou.  Esta situação foi interrompida por uma série de assassinatos e desarmamentos, forçados desterros e acordos secretos. O assassinato de "Betmen" em 1º de janeiro de 2015 e Mozgovyi em 23 de maio - são episódios mais vivos de centralização do poder em Luhansk. Neste processo, o serviço secreto russo desempenhou um papel importante. O assassinato de "Betmen" foi feito, provavelmente, segundo a liderança do coronel russo. A ordem veio do Ministério de Situações de Emergência da Rússia.

- Quem é esse coronel e para que veio a Donbas?

De acordo com as informações de minhas fontes, isto é um acordo. Trata-se de Eugene Wagner, coronel do Ministério de Assuntos Internos da Rússia. Em setembro de 2014 Wagner foi nomeado vice-comandante do Grupo Conjunto de Forças para conduzir operações de contraterrorismo na região do Norte do Cáucaso da FR.
A partir de novembro de 2014 grande número de grupos oposicionistas a Plotnytskyi foi desarmado. Todos eles culpavam o coronel Wagner. Ele e seus homens trabalhavam sob a capa de "companhias  militares privadas", proibidas na Rússia.
É provável que Plotnytskyi e os kazaques fizeram certos acordos. Dryemov afirma que tem evidências de ligação de Plotnytskyi à venda ilegal da ajuda comunitária, mas podemos supor que ele não as publicará enquanto durar a paz relativa.
No entanto, após a morte de "Betmen" e Mozgovyi, muitos pensaram que Paul Dryemov seria o próximo da lista. Afinal, ele - o último obstáculo ao Plotnytskyi para o controle total sobre o seu clã na FSC.

- Você passou mais de 3 meses na FSC. Diga como vive a população da autoproclamada república? Qual é a opinião dos cidadãos comuns em relação aos separatistas?

- Apesar do número oficial de 1,2 milhões de imigrantes e refugiados da ONU, podemos dizer que, de fato, cerca de metade da população dos territórios não controlados pela Ukraina saiu de lá. Antes do início das hostilidades lá viviam 6,5 milhões de pessoas. Hoje o grupo mais numeroso da "DNR" e "FSC" são pensionistas que não puderam ou não quiseram sair.
Estes pensionistas vivem na pobreza, e em grande parte dependem da ajuda humanitária. Eles realmente não se importam, de onde e quem a trouxe.
Na FSC sente-se uma grande fadiga da população local. Muitos dizem que não apoiam, nem os separatistas, nem Ukraina mas, simplesmente, querem paz. As pessoas compreendem que os separatistas não podem existir, independentemente, da Ukraina ou da Rússia.
Na região já quase não há adeptos de "Nova Rússia". Os que apoiam o projeto dos separatistas, o fazem porque apoiam a adesão da região à Rússia. Mas muitos sabem que esta adesão não ocorrerá. A estas pessoas não importa quais são as bandeiras que irão pairar sobre suas cidades, contanto não haja mais ataques, que não caíam bombas.

Há um grupo de apoiantes ukrainianos no Donbas, mas é difícil estimar o seu número.

Na cidade é palpável a tensão, o medo, os moradores locais não falam sobre seus pontos de vista às pessoas estranhas. Mas, se você conseguir estabelecer relações de confiança, eles imediatamente dirão, que estão desesperados contra o autoritarismo dos combatentes separatistas e seus líderes.


Além da atmosfera do medo, a propaganda desempenha um papel crucial.
Não é difícil convencer o pai, que acabou de enterrar seu filho, que tudo é culpa dos "fascistas" ukrainianos. Tal é a natureza humana.
Aliás, algumas medidas do Serviço de Segurança da Ukraina são muito impopulares, como o sistema que restringe a livre circulação de pessoas através das linhas inimigas.
É difícil sentir-se ukrainiano quando você precisa esperar duas horas apenas para ir a Kurakhovo fazer compras, onde os preços são duas vezes menores que em Donetsk.
A luta pelos corações e almas das pessoas pode parecer menor, mas ela é, realmente crucial na guerra que Ukraina conduz. 

Tradução: O. Kowaltschuk

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