quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ukraina e Rússia. Príncipe Volodymyr e origem da língua ukrainiana.
Radio Svoboda (Rádio Liberdade), 12 de novembro de 2016
Larisa Masenko


"A história das relações culturais entre Ukraina e Rússia - é história de uma grande e ainda não terminada guerra", - escrevia Yuri Shevelev no seu ensaio "Moscou, Marosyeyka" em 1954, quando URSS pomposamente comemorava o 300.º aniversário do Conselho de Pereyaslav como "santificado da reunificação" da Ukraina e Rússia. Em troca Shevelev tinha outra visão sobre este evento: "Pereyaslav na perspectiva de três séculos parece-nos o início de uma grande tragédia."

A guerra no campo cultural acompanha a já atual ofensiva armada da Rússia contra Ukraina. 

Prova disso é a inauguração no centro de Moscou, do monumento ao príncipe Volodymyr, o Grande.

A natureza solene do evento determinou o dia escolhido para isto - 4 de novembro, que na Rússia é celebrado como Dia da Unidade Nacional, e a participação das pessoas de topo - presidente Putin e o Patriarca Kiril de Moscou.

Durante a inauguração em Moscou do monumento ao príncipe de Kyiv Volodymyr, o Grande. Da esquerda para direita: presidente da Rússia Vladimir Putin, Patriarca Kirill de Moscou e o primeiro-ministro Dmitry Medvedev, 04 de novembro de 2016.

A idéia da unidade nacional era dirigente nos discursos pronunciados. No discurso de Putin o príncipe Volodymyr de Kyiv foi apresentado como um "colecionador e protetor de terras russas, como um político visionário, que criou as bases de um Estado unificado, forte e centralizado, o qual unificou em uma grandiosa família povos iguais entre si, idiomas, cultura e religião".

Na unidade das nações, supostamente unidas pelo príncipe Volodymyr falou também o patriarca Kirill, um pouco deslocando os fatos. Ele chamou o príncipe de Kyiv "símbolo da unidade de todas as nações, cujo pai ele é, e que são nações da histórica Rus, que hoje vivem dentro das fronteiras de muitos países. Monumento ao pai pode haver em qualquer lugar, onde vivem seus filhos, nisto não há nenhuma contradição. Mas é ruím, quando os filhos esquecem, que eles tem um único pai".

Como vemos, o patriarca de Moscou tentou suavizar a dissonância cognitiva, causada pelo fato que o monumento a Volodymyr, o Grande, foi estabelecido em Moscou, no lugar de seu governo ali havia apenas um rio pantanoso, e o reino de Moscou surgiu vários séculos após sua morte. Daí, que Volodymyr não podia ter sido "colecionador de terras russas" no sentido geopolítico que coloca nesta concepção o cabeça de Kremlin.

Foto de antes da guerra de 2009. A ação de protesto contra a visita à Ukraina do Patriarca Kirill de Moscou.

Este novo artefato de monumental propaganda russa demonstra que, a interpretação imperial de tratamento à Rus de Kyiv como "berço de três povos irmãos - russos, ukrainianos e bielorrussos" - permanecem na Federação Russa como canônico-histórico sistema.

Vale lembrar, que, exatamente devido ao conceito de "berço comum" Rússia se apropriou do antigo Estado ukrainiano, o seu patrimônio escrito e até o seu nome, mudando o nome original russo "moscovita" em uma estranha formação adjetiva "Russkiye". (O primeiro nome da Ukraina era Rus, "Русь" em ukrainiano. A pronúncia final, da leta "u" não é bem igual à pronúncia em português. Os moscovitas apoderaram-se deste nome, modificando-o ligeiramente., e virou Rússia. Então o povo da Rus, ou seja "Русь" desistiu do nome que era seu e passou a chamar seu país "Ukraina". Como veem, a Rússia sempre foi usurpadora.Também não sei porque aqui no Brasil não adotaram o nome Ukraina, que não apresenta nenhuma dificuldade no idioma português. - OK)

Em vez disso, para os ukrainianos e bielorrussos o "berço de três povos "irmãos", corre o risco de transformar-se em caixão mortuário, porque uma das "nações fraternas", a exemplo da ave cleptoparasitofóbica, faz tudo, para jogar fora do ninho seus verdadeiros donos e tomar o seu lugar.

Concepção de toda linguagem de Alexei Shakhmatov.

As pretensões da Rússia à Rus de Kyiv fundamentou a teoria linguista especial dos "três povos irmãos". Seu criador foi o linguista russo Alex Shakhmatov. De acordo com sua concepção, o idioma russo, ukrainiano e bielorrusso existiam na forma de uma única língua comum. Como linguagem independente, supostamente formaram-se já após o colapso desta linguagem comum, apenas nos séculos XII - XIV. 

O argumento de Shakhmatov foi bastante confuso, no momento de sua introdução, que causou debate e não foi aceita por muitos cientistas. Mas aqueles benefícios, que ela fornecia como desculpa para pretensões à Rus de Kyiv, totalmente aproveitou o totalitarismo soviético. Os bolcheviques introduziram o esquema Shakhmatov como dogma em todas as ciências humanas. Concepção do único para ukrainianos, russos e bielorrussos, de "toda linguagem russa", que de fato continuou a execução do projeto imperial formando "tri única nação russa" tornou-se um instrumento eficaz de russificação e perca de indícios de nação, de ukrainianos e bielorrussos com a perspectiva de sua dissolução na comunidade étnica russa. 
(Prezados, eu não acompanho a situação na Bielorrússia, tanto por não dispor de mais tempo, quanto pela quase total ausência de reportagens na imprensa ukrainiana. O que eu sei é que Lukashenko é presidente "vitalício" e fidelíssimo a Putin. Mas, recentemente li um artigo sobre este país. Lá também há pessoas desejando independência. Não sei se já há alguma organização neste sentido, e se são muitos os descontentes. Ah, Lukashenko prepara seu filho menor, que deve ter uns 14 -15 anos, para substituí-lo no "trono". Falou isto desde quando o menino era bem pequeno, inclusive o leva às reuniões politicas ou administrativas. É o que li nos jornais. - OK)

No poster diz "Linguagem - é herança milenar", durante o jogo de futebol entre Ukraina e República Checa, 2012.

É significativo, que na "Wikipedia" russa o nome "Rus de Kyiv" foi substituído por "Antigo Estado Russo" e o artigo "antigo idioma russo" explicam este idioma de acordo com o conceito de Shakhmatov como idioma de eslavos orientais, que é "ancestral comum das linguagens bielorrussa, russa e ukrainiana".

Violando o princípio da objetividade enciclopédica a "Wikipedia" russa não fornece nenhuma outra teoria, que nega a existência de uma tal linguagem comum eslava oriental.

Pesquisa de Shevelev sobre a origem da língua ukrainiana.

A fragilidade de construções teóricas e falibilidade de sua conclusões Yuri Shevelev fundamentou nas pesquisas de história das línguas eslavas, que concluíram-se com seu trabalho fundamental "Fonologia histórica da língua ukrainiana" que foi publicado no idioma inglês em Heidelberg em 1979.

Destacado conhecedor de filologia eslava, com base em pesquisa de registros escritos e fatos dialéticos, refutou a teoria da existência de uma única linguagem dos eslavos orientais no período medieval e provou, que o idioma ukrainiano, como os outros idiomas eslavos, começaram formar-se como uma língua separada diretamente da eslava comum após o seu colapso nos séculos VI - VII.

Nesta investigação fundamental Shevelev gastou muitos anos de sua frutífera atividade científica na emigração. Apesar de que, ao estudioso pertencem muitas pesquisas em vários campos da filologia, é exatamente este trabalho que ele considerou como o mais importante de sua vida.

A amiga próxima de Yuri Shevelev Oksana Solovei lembrava: "Era uma vez, quando ainda imóvel estava uma parede surda entre a emigração e Pátria, Yuri Shevelev disse: "Aquilo, que Hrushevsky (historiador ukrainiano-OK) fez para história ukrainiana, eu fiz para o idioma ukrainiano".

Pesquisas da história do idioma ukrainiano fizeram o famoso eslavista linguista  persona non grata na União Soviética. Na pátria os funcionários da linguística sujaram seu nome, que na época já havia alcançado elevado prestígio nos círculos da filologia eslava, com injúrias brutais - "bajulador fascista", "bajulador de Hitler", "burguês nacionalista ukrainiano".

A única razão para tais acusações eram as publicações de Shevelev na imprensa de Kharkiv "Nova Ukraina" e "Semeadura ukrainiana" em 1941 - 1943. Nenhuma evidência de colaboracionismo seus artigos científico-populares de diversas questões da linguística e literatura ukrainiana não continham, mas, porquanto essas publicações no período soviético permaneciam em esconderijos especialmente fechados, verificar a correção das acusações ninguém podia.

Hoje, graças aos esforços do linguista Sergei Vakulenko, de Kharkiv, e sua aluna Catherine Karumyk, aqui procuravam nos arquivos e publicaram em 2014 as mencionadas publicações de Shevelev no livro "Pelo caminho da de sovietização". Qualquer pessoa, que tem interesse no patrimônio de Shevelev, tem a possibilidade de conhecer os textos que contribuíram para o aviltamento de seu bom nome.

Sergey Vakulenko, em colaboração com Andrei Danilenko fez também a tradução de "História da fonologia do idioma ukrainiano". O livro de mais de mil páginas foi publicado em 2001 na editora "Act" de Kharkiv.

O valor deste trabalho para difusão de verdadeiros conhecimentos sobre a história do idioma ukrainiano é difícil subestimar. "O livro decididamente afasta-se de alguns clichês e não se encaixa no esquema oficialmente prescrito. Shevelev escreveu no prefácio para ele. - O autor reconhece que nos dias de hoje, o papel de liderança está na disseminação de determinados conjuntos de idéias e pertence a bombas atômicas, tanques, meios de propaganda e aberto oportunismo - como na Idade Média pertencia às fogueiras, inquisição, propaganda e também o mesmo oportunismo. Ainda assim, quer se acreditar, que os fatos sem distorções e fundamentados afinal abrirão seu caminho"

Tradução: O. Kowaltschuk

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